29 September 2013

Campo :: Countryside


Há quase quatro anos mudei-me de Lisboa para o campo inglês e acordei para a natureza. Efeitos (defeitos?) da vida urbana — no momento em que passei a viver sem prédios, nem carros, nem pessoas à volta, comecei, de facto, a ver todas aquelas coisas para as quais, até então, apenas olhava.

E hoje em dia, apesar de ainda gostar muito da cidade, gosto ainda mais de não ter de lá viver durante todo o ano. 

(agora na Nova Zelândia a mudança tem sido ainda mais drástica, mas ainda é muito cedo para escrever sobre ela)

Tudo isto para dizer que, de há uns anos para cá, vibro com cada folha, flor e fruto que se atravessem no meu caminho. As viagens de carro deixaram de ser aborrecidas e as estações do ano ganharam um encanto redobrado. Neste recente passeio ao Douro, o Tiago ouviu dezenas de vezes frases como "olha aquele castanheiro carregadíssimo!!", "tantas amoras!!", "já viste aquelas flores??", "olha-me estas bagas cor-de-laranja!!", "Tiago, pára o carro!!"...

E as memórias de infância? Essas também começaram a surgir de onde menos se esperava. Não que a minha infância tenha sido especialmente bucólica (não foi), mas as crianças, mesmo as citadinas, acabam por passar bastante tempo ao ar livre. E agora, quando sinto o cheiro de uma figueira num dia quente, volto a ter 8 anos durante uns segundos.

Ridículo? Enternecedor? Não interessa: a verdade é que agora sinto-me muito mais desperta para o mundo. E cheia de vontade de um dia vir morar para o campo português.


Nearly four years ago I moved from Lisbon to the English countryside and suddenly I was awakened by nature. That was the effect (defect?) of country vs. urban life — when I found myself no longer living in a flat, with no cars and no people around me, I began to notice all those things that I only used to quickly glance at.

Nowadays I still love the city but you know what I love even more? Not having to live there all year round.

(in New Zealand things have changed even more for me but it's still early days to write about it)

All the above to say that nowadays every leaf, flower and fruit gives me a thrill. Road trips are no longer boring and the seasons are more exciting than ever before. During our recent trip to the Douro valley, Tiago was forced to listen to dozens of cries like "look at that sweet chestnut tree laden with fruit!!", "all those blackberries!!", "have you noticed those flowers??", "just take a look at these orange berries!!", "Tiago, stop the car!!"...

Childhood memories have been triggered too. Not that my youth was particularly bucolic (it wasn't), but children — even urban children — do tend to spend a lot of time outdoors. Nowadays when I sense the sweet smell of a fig tree on a very hot day, I feel like I'm 8 years old for a split second.

Ridiculous? Endearing? It doesn't matter, really: truth is, I now feel much more awake. And full of hope to one day put down roots in the Portuguese countryside.

(photo: © Constança Cabral)

11 comments:

  1. Como eu te entendo Concha! Sabes durante algum tempo, pensei que era "esquisito", este meu lado sensivel, em gostar de apreciar a Natureza com alguma atenção. Sempre gostei de apanhar pedrinhas, troncos, folhas, bagas e tirar-lhes fotos. Gosto de mexer, cheirar, fotografar e apreciar.
    Continua assim, pois nós deste lado apreciamos e muito o que nos mostras.

    Ligia

    xx

    ReplyDelete
  2. Depois de te ter escrito no facebook era exatamente isto que te queria dizer:) esta tranquilidade, este voltar às origens e apreciar do mundo em redor.
    Adoro ler isto por aqui e são exatamente estes posts que me fazem ter vontade de fazer este processo!

    Beijos*

    ReplyDelete
  3. Maravilhosos sentimentos e percepções. A natureza está aí desde sempre para nosso deleite(sem destruição,claro), cimento é coisa de gente que acha que sabe muito, que acha que pode fazer grande coisa, mas voltar à simplicidade de uma vida no campo é uma oportunidade que não se pode descartar. Mas o que você estava fotografando, um urso? rs
    Cada vez admiro mais tuas escolhas, Parabéns. Que criança de sorte tens.
    Bjinho

    ReplyDelete
  4. Como te compreendo...

    Foi há cerca de 6 anos que se começou a concretizar o sonho de morar no campo. Palmela foi a terra escolhida, relativamente perto de onde morávamos, mas campo. Palmela é uma vila com uma "aura" diferente, o castelo, as ruas antigas em calçada... mas é também terra de vinho e de vinhas e, foi exactamente isso que eu escolhi. Onde antes havia uma vinha enorme, agora existe uma vinha um bocadinho mais pequena + uma casa + um jardim + 2 cães = uma família feliz.
    É o meu pedaço de campo, quase dentro da cidade.

    Um Beijo
    Maria

    ReplyDelete
  5. Gostei tanto deste post!!!

    Eu que cresci 50-50 entre a cidade e o campo, dei por mim há dois anos a ansiar pela vida no campo, pelo tempo em que tinha tempo para comungar plenamente com a natureza!

    ReplyDelete
  6. Já vivi na cidade e agora estou meio/meio: tenho a Serra de Sintra a meio metro e Cascais a outro meio. Gosto deste equilibrio, da possibilidade de dar três passos e ter as comodidades da cidade à mão de semear, mas olhar à volta e morar no campo. Já não suportaria voltar para a cidade!

    ReplyDelete
  7. Concretizei esse sonho de viver no campo e sinto-me no sítio certo. E como estou na casa da minha avó, sei o que é isso de me sentir pequenina outra vez. De resto, subscrevo as palavras da Constança: maravilho-me até com as florinhas que crescem entre as pedras da calçada - que determinação esta de dar beleza às pedras! :-) Ana

    ReplyDelete
  8. Relaciono-me contigo nessa de "marido, pára o carro!" - consequências do Instagram... :)
    E também na vontade de mudar-me para o campo...
    Por nós, gostamos de ver-te a viver pelo mundo e a partilhares connosco lugares e realidades diferentes dos nossos, mas quando voltares para cá iremos pular de alegria por ter-te por perto e temos a certeza de que irás mostrar-nos Portugal com outros olhos - e isso também é precioso! :)
    PS: Em Portugal também há indústria cervejeira. ;)

    Sara C. Soares

    ReplyDelete
  9. Pessoalmente sinto muito a falta da natureza, apesar de viver num bairro histórico e adorar. Quando tínhamos carro não havia um fim-de-semana que não fossemos a Monsanto ou a Sintra. E hoje faz falta. Também penso muitas vezes que adoraria viver no campo, mas acho que também sentiria falta desta convivência que temos nos bairros históricos de Lisboa. Para mim o ideal seria mesmo uma fusão dos dois mundos... o que é certamente pedir demais. Acredito contudo que mais cedo ao mais tarde, viver no campo será mais forte que eu. :)

    ReplyDelete
  10. Sinto um pouco isso também!! Também toda a minha vida vivi em Lisboa e quando ia para a terra dos meus avós e podia estar no meio do campo, sentia uma liberdade tão diferente da da cidade!! Tb gostava um dia de vir a viver no campo cá em Portugal... =) ****

    ReplyDelete
  11. É o meu sonho...
    Enquanto isso, sinto-me bem passar por aqui...

    Um beijinho,
    Luísa

    ReplyDelete

Thanks for your comment; do come again soon!

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...